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sábado, 16 de fevereiro de 2013

O estado em que este homem está

Até meio do caminho vem bem caladinho. Até que o Jorge Palma irrompe por dueto com brasileiro adentro e taxista comenta: «... esta letra é bonita, é muito bonita, mesmo. Mas... O QUE É ISTO? Você já viu o estado em que este homem está? Já nem canta, ele fala! Olhe agora, olhe agora!», alertava-me, com o conhecimento de causa de quem ouve a mesma estação de rádio todo o santo dia. Aliás, a seu ver, a Comercial está «muito boa», apesar de repetir muito as músicas e as rubricas. aproveitei para me armar e dizer que sou amiga da famosa Ana Martins - «é gira e tem piada», avaliou ele - e acabámos a corrida a falar da antiga equipa da Rádio Energia, na qual ele tem muitos amigos.

Press

Ainda não estou de férias se olho para o cinto do táxi e penso "acreditacões, é aqui!".


Orbital

Aquele instante da noite em que não percebo se o PIII PIII III insistente é do pisca do táxi ou da música da Rádio Orbital (era da música).

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Natal num táxi


«Barata?», atende, intrigado, o taxista a meio da viagem. «Ah, João! Desculpa, não estava a ver! Como estás?». Seguem-se as primeiras palavras que ouvi ao severo motorista desde o «bom dia» de quando cheguei à praça e me pegou na mala. Depois de uma tarde a fazer conversa no cabeleireiro, o silêncio do taxista - coisa tão contra-natura no seu ofício - estava quase a incomodar-me. Avenidas fora, rumo a Santa Apolónia, só uma reportagem interminável da TSF sobre alfarrabistas de Coimbra enchia o carro de som, até ao telefonema do tal Barata. João. Queria saber como estava este nosso amigo, da última vez achara-o muito «em baixo». «Fui-me um bocado abaixo, fui», confirma o taxista, sempre parco em palavras. «Só hoje voltei ao trabalho». Percebi que algo de mauzito lhe teria acontecido mas o pudor de comentá-lo frente a um cliente falou mais alto. «Estou num serviço, sim», corroborou (justificou?) mais uma vez, antes da despedida afável com um «prazer em ouvir-te!» e desejos de feliz natal.

Antes, uma das empregadas mais amorosas do meu «café do costume» tomara o pequeno-almoço na mesa ao lado da minha sem dar pela minha presença, olhos rasos de lágrimas e gestos nervosos a comprometer a segurança do prato da torradinha. Com vergonha de inquirir o que se passava, limitei-me a desejar-lhe boas festas.

Chegada à estação, entre os pombos sujos e o cheiro a croissants, alguns sem-abrigos e dementes de vária ordem montavam o seu teatrinho. Um falava para o ar, mas parecia tanto que se dirigia a mim que um homem fardado me veio perguntar se estava tudo bem. Anuí, mas mesmo assim o segurança foi dar duas palavras ao palavroso homem. Quando troquei a sala de espera pelo comboio, arrastando a mala prenha de prendas, ainda o ouvi balbuciar, entre outros dizeres incompreensíveis: «os padres deviam ser castrados!» e «quantas pessoas não comeram à custa da igreja».

(Dezembro 2010)

Os estranhos são estranhos

A vida excitante de quem depende dos transportes públicos, capítulo 635. Hoje acabei o dia a partilhar táxi com três estranhos que, tal como eu, penaram uma hora no Marquês, à espera de um autocarro que nunca veio. Minutos antes da decisão final («Só dá um euro a cada um!», aliciava o organizador da excursão), uma senhora ainda garantiu ter falado ao telefone ao marido, que vira o nosso bus a caminho. Goraram-se as expectativas quando o que parecia ser o veículo da salvação desceu a Avenida da Liberdade, em vez de nos vir buscar. Mas o conceito de estranho é relativo: poucos minutos foram precisos para perceber que uma das senhoras vivia frente à «minha» antiga casa e, consequentemente, conhecia a minha tia. «Hospedeira, tem uma casa no Alentejo? sei muito bem quem é!». E é assim que acabamos o dia a despedirmos-nos de uma estranha com quem partilhámos o táxi dizendo: «Então cumprimentos à minha tia!».

(Novembro 2011)